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Revista PROGRAMAR

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Entrevista a: Edite Amorim

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Revista PROGRAMAR – (RP): Fale-me um pouco de si e do seu percurso.

Edite Amorim-  (EA):  Hum… Nasci no Porto em 80, e estudei na Póvoa de Varzim, onde vivi até aos 26 anos. Era muito distraída na escola, estava sempre a mil com cem ideias e demasiada energia. Falava muito. Fiz patinagem artística 12 anos, estive para ir para a Escola Profissional de Teatro e em vez disso fiz o Secundário na área de Desporto.

Só consegui entrar na faculdade que queria – Psicologia, na Universidade do Porto – à terceira tentativa, o que me fez estar um ano de fora a lidar com a frustração de maneira hiperativa (dei dezenas de horas de explicações a miúdos, tirei a carta, escrevi imenso, fiz rádio, viajei pela primeira vez de avião) e um outro numa faculdade privada, de onde consegui transferência, depois de conhecer a que seria a minha grande sócia uns anos depois.

Aos 26 anos, com 2 de carreira como psicóloga e como empreendedora, deixei a casa nova com 2 quartos e fui partilhar um apartamento com 5 pessoas que não conhecia, para Barcelona, onde fiz o Master e trabalhei em tudo o que apareceu.

Desde então as viagens, os desafios, os encontros, as aventuras de dentro, a dança e o acreditar têm sido as coisas mais estáveis dos dias. Todo o resto tem mudado regularmente, inclusive os países onde vivi (Espanha, Irlanda, Suécia e França).

Ocupo-me a escrever para várias publicações, a dar aulas de Dança e Expressão e a ser coordenadora da THINKING-BIG, através da qual dou formações no que me apaixona e define (Criatividade e Psicologia Aplicada, usando dinâmicas de grupo, conceitos da Filosofia e storytelling). Troco o certo pelo incerto com muita frequência e mudo de papéis sociais com alguma facilidade (de conferencista internacional a lavadora de pratos, de professora de dança a voluntária num campo de Refugiados).

Continuo a falar muito, mas agora também medito e aprecio o silêncio.

RP Como surgiu a “Thinking-Big”  (Pensar grande) ?

EA: A THINKING-BIG é a evolução natural do meu anterior projeto – Jogos de Corpo e Voz (JCV) (http://corpovoz.blogspot.fr), que criei mal saí da faculdade. Foi desenvolvido em parceria com a minha sócia e grande amiga Bianca Varandas e durou 7 anos, durante os quais inventámos várias formas de potenciar as pessoas (crianças e adultos), de levá-las ao seu melhor.

Um dia, num congresso em Itália, percebi que o que andava a fazer se chamava Psicologia Positiva Aplicada e decidi investir a aprender mais sobre o tema. Os novos horizontes que os livros trouxeram e a as portas que a experiência como consultora de formação numa empresa em Barcelona abriram, tornaram o próximo passo natural: decidi fazer um Doutoramento nos EUA nessa área (o único na altura). Viajei até Filadélfia para falar com o professor responsável, ele disse-me que eu era demasiado prática para ficar confinada à investigação que era necessária naquele programa e 10 dias depois, no meio de Colorado Springs, em casa de uns amigos que tinham organizado uns workshops sobre Criatividade para eu dar, a THINKING-BIG (um projeto a solo) nasceu. Estávamos num café bonito, com internet, e depois de um mini-brainstoring sobre o que é que eu deveria fazer a seguir, já estava a ver se o domínio (thinking-big.com) estava disponível, a comprá-lo e a fazer o primeiro esboço da minha página web.

Fechámos o ciclo dos JCV (a minha sócia também começava a dar passos noutras direções) e comecei os meus, nesta caminhada a sós que já dura desde o verão de 2011.

RP: Numa das suas conferências diz ser “criadora de dias”! O que é ser criadora de dias?

EA: Esta é uma expressão que uso muitas vezes, que só quer dizer que cada dia é uma construção, sem rotinas fixas ou pré-definição.

Sendo freelancer acontece que cada dia guarda a possibilidade de ser inventado quase por inteiro. Significa que às vezes me demoro 3 horas no livro que leio ao pequeno-almoço, outras vezes respondo a e-mails ou escrevo até à 1 da manhã, e noutros permito que um encontro com um estranho se prolongue por 2 horas.

Não tenho os dias como garantidos e é raro saber de antemão como vai ser o seguinte. Por isso, desejo estar sempre desperta para os saber preencher da forma que mais significado tenha, para poder aproveitar mais de mim e do que sei e gosto de fazer.

Ser criador de dias significa, sobretudo, estar consciente e à procura da melhor forma de encher as 24 horas que me são dadas viver a cada dia e inventar sequências que me permitam viver, mais do que “ir sobrevivendo”.

RP: Como é ser um profissional nómada? Que dificuldades/desafios encontra normalmente?

EA: Ser de algum modo um pouco nómada tem sido desafiante e cativante na mesma proporção.

A parte bonita e saborosa é bastante óbvia (variedade, estímulo, riqueza, intensidade,…). A contraparte é um enorme desafio a vários níveis.

A nível prático obriga-me a um grande rigor e disciplina, porque é sempre um começar de novo, a cada novo poiso.

É preciso procurar os lugares onde consigo trabalhar (não só com condições práticas, como internet e boas mesas, mas com potencial de inspiração, de bem-estar).

Depois, há sempre a habituação ao idioma, à cultura, às formas de fazer (há lugares onde a naturalidade é mais bem-vinda do que os formalismos e vice-versa;  isso também pede um grande foco e energia, e uma predisposição para adaptar os meus passos quotidianos).

Tudo isto obriga-me a uma atenção muito fina, e a uma capacidade para me reinventar de maneira quase permanente. Nada é assumido como demasiado garantido, tudo implica um estado de alerta mais ou menos constante, e isso às vezes é cansativo, exigente, e muitas vezes solitário.

A vida (a de fora e a de dentro) passa às vezes a caber numa mala. Há momentos em que essa mala sabe a pouco, mas esse desapego torna a vida mais leve, mais focada no fundamental.

“Desafio bonito” seria a expressão-resumo para esta pergunta.

RP: Algum truque especial que uses para os ultrapassar?

EA: No meu caso o “truque” é o interesse grande no processo de “fazer casa fora de casa”, nem que seja por alguns dias.

Procuro pessoas com quem me relacionar, atividades culturais que me satisfaçam a sede de Beleza, e espaços onde dançar, que é para mim o exercício e a expressão numa só atividade (manter o corpo acordado é sempre uma prioridade. Tento nunca o deixar desatendido, nem que seja alongamentos no quarto ou caminhadas longas pela cidade).

Vivo muito as cidades onde habito ou onde vou trabalhar. Procuro cafés diferentes para pousar o computador, faço compras no comércio tradicional, caminho pelas ruas, falo com os lojistas todos, crio rotinas de coisas simples… Isso ajuda a perceber e viver os espaços, a conhecer as pessoas e a sentir que se faz parte da engrenagem social, de um universo comum. Ajuda imensamente.

A curiosidade aguçada também é de grande auxílio. Manter os sentidos abertos para as diferenças, para aprender como se faz, para sentir o que  muda e o que permanece à volta. Sem julgamentos de “melhor ou pior”, só anotando e “curioseando” nas diferenças que vejo ao meu redor.

No meio de tudo isto, a escrita de diário de vida (que recolhe o bilhete de cinema, a fatura do café, um pequeno panfleto bonito, uma folha de árvore, colecionando bem a vida) e a ligação virtual ou por carta com as minhas pessoas de referência, espalhadas um pouco pelo mundo, são os fatores que me mantêm os pontos-chave no lugar. Nunca se é nómada das coisas de dentro.

E creio que o meu truque tem sido esse: procurar levar a vida de dentro onde quer que os passos de fora pousem.

RP: Diz-se convencionalmente que arte é “pintar um quadro, fazer uma escultura”, será “criar algo, apenas porque se imaginou esse algo, ‘out of the blue”, arte ?

EA: Neste campo não posso dar mais do que o meu ponto de vista como “passeante pelo mundo da Arte”…

Eu acredito na Arte como um processo que nasce de um percurso, uma construção sobre conceitos e referências. Não existe, na minha opinião, um “Out of the blue”, já que tudo é criado a partir de um material pré-existente, a residir cá dentro. O que já aprendemos, com quem falámos, os filmes, música, livros que nos passaram pelas mãos… Tudo isso constrói um material que, no momento de criar, se compõe e manifesta. Como sublinhou um pensador português já falecido, o Luís Falcão: para entender a Criatividade é necessário olhar a tradição, a história e todo o conjunto de peças do passado que nos faz o que somos no presente. Assim, consciente ou inconscientemente, tudo se cria a partir  de qualquer coisa. Daí a importância de nos enriquecermos do já existente, quando desejamos criar o novo.

A Arte nascerá, desde o meu ponto de vista, de um trazer à realidade uma nova forma de sentir e expressar, seja através da pintura ou escultura, como referes, ou através de qualquer outra manifestação criativa/expressiva, que colabore para um sentido mais cheio do mundo de fora ou de dentro.

RP: Uma questão incomum! O que diria a alguém que lê pela primeira vez uma mas mais inquietantes e criativas citações de Richard Feynman ? “Estude o que mais lhe interessa da maneira mais indisciplinada, irreverente e original possível.”

EA: Rir-me-ia e diria só: “Sim, é isso. Faz isso! Endoidece, reinventa, sai e entra e sai e entra da caixa as vezes que forem necessárias para chegares ao que queres aprender com gosto, com prazer, com curiosidade, com vontade de que te brilhem os olhos. Procura o gozo extremo de integrar em ti coisas novas que queiras fazer tuas.”

RP: “Os impossíveis tardam um bocadinho mais!” ( Sim nós fazemos o trabalho de casa!) O que dirias a um developer, ou um “tinkerer” alguém que se desunha para combinar palavras e “pequenas peças”, para fazer algo, e sente vontade de desistir face à adversidade ?

EA: A primeira coisa que lhe diria seria um “Bem-vindo ao clube, meu/minha caro/a)!” Sentimos todos essa vontade de retirada, em algum momento, creio eu. Eu, pelo menos, sinto imensas vezes.

Mas a frase que citas (e que eu repito inúmeras vezes dentro da minha cabeça), é um bom organizador de motivações.

Claro que é duro caminhar a construir algo de novo. As dúvidas (“Estou mesmo no caminho certo?”, “Estou a fazer tudo o que posso?”, “Isto vai mesmo valer a pena?”, “Valho o suficiente para isto?”, “Porque é que à minha volta não reconhecem o que estou a fazer?”) assaltam-nos nos momentos mais inesperados. Mas a paciência e a capacidade de esperar e perseverar (que são um treino bem desafiante, pelo menos para mim), são chave para não desistir. Esta frase é uma espécie de pensar grande, de fazer zoom out aplicado ao que se está a construir. No momento talvez pareça absurdo (e parece-me muitas vezes), mas quando o tempo avançou e se percebe que só mesmo aguentando, esperando e continuando a acreditar é que se conseguiu chegar a ver algum resultado, confirma-se que a frase tem mais sentido do que o cliché que parece.

A verdade é que não se conhecem caminhos diretos para chegar a lado nenhum, conhece? Todas as grandes histórias (de livros, filmes, de TED talks, de personagens que fizeram a diferença) têm sempre a parte de “E um dia passei por um período horrível – um processo de falência, um esgotamento, o quase fecho de um projeto profissional – e depois de resistir à vontade de largar tudo e só desistir, voltei a agarrar-me ao que realmente desejava fazer e recomecei com nova força, trazendo-me esse percurso até ao lugar onde estou agora.”

Os impossíveis fazem-se, acontecem, chegam. Mas é preciso acreditar com força no lugar para onde se está a caminhar e agarrar-se com convicção – a possível e às vezes a impossível – aos pedacinhos de caminho.

E, às vezes, há que saber também desistir, quando se percebe com boa certeza, com grande clareza, que o investimento necessário nos consumirá uma energia que não estamos dispostos a perder.

Mas quando o caminho é sentido como certo por dentro, como “o tal” do momento, só difícil nas formas e no processo, sou adepta da persistência. Pegando nas dificuldades todas e conversando com elas à volta de um copo de vinho, ou num passeio pela cidade. Mas fazendo-as parte da caminhada, amigavelmente. Por isso, developers, tinkerers: descubram o vinho preferido das vossas dificuldades e convidem-nas para um jantar com queijos e paciência. Ainda acabam a noite a rir-se a bom rir das tropelias e preparados para continuar, apesar do colesterol altoJ.

RP: Como é possível confiar quando tudo parece “negro” ?

EA: Vou responder desde o meu percurso individual, sem tentar generalizações ou dicas gerais.

Esta é, na verdade, das aprendizagens que me tem sido mais difícil e dura ao longo dos anos. Mas talvez também a mais preciosa.

Como freelancer passo, por vezes, por períodos sem projetos externos (sem clientes que me peçam uma formação ou uma conferência), o que me obriga a ter que gerir a vida de uma forma particular, não só económica como animicamente. E às vezes as coisas parecem mesmo negras, claro. Imagino que no vosso caso aconteçam coisas bem semelhantes.

No meu caso, eu sinto uma clareza absoluta de estar no caminho certo, de ser exatamente isto que me apaixona e que me entusiasma fazer. Essa certeza é uma força gigante, nos dias de outras dúvidas. Sentir que este é o caminho de verdade para mim e que, por isso, preciso de o continuar.

Outro aspeto importante é a contribuição para algo maior: eu confio que o meu trabalho é uma peça de uma engrenagem, um contributo para a sociedade, para a plantação de pedacinhos férteis de humanidade. Assim, quando as tarefas concretas a que me dedico se tornam isentas de efeito  ou de sentido (o que desmotiva), procuro re-sintonizar no sentido maior do que faço. E nesse momento consigo perceber que aquele impasse é só uma parte do caminho, uma pedra. Mas que o caminho vale a pena, e que merece de mim que persevere nele. (Imagino que haja projetos que um programador esteja a desenvolver que sejam exatamente o mesmo: sentem que estão a colaborar para algo maior do que eles).

Depois, há algo que é da ordem do invisível. Há quem lhe chame “Fé” (não num sentido religioso, mas mais amplo). Eu chamo-lhe um Acreditar, e um continuar sem vergar, por um caminho que sabemos que está certo. É um saber cá por dentro que vale a pena, que sempre se chegará aonde nos esperam, como dizia o José Saramago.

A um outro nível, mais prático, ajuda-me muito rodear-me de pessoas que me animam a caminhada, sejam amigos que me dizem “Confio no que estás a fazer e na tua capacidade para o fazer”; sejam colegas que me validem as competências, que me reconheçam o valor profissional; ou mesmo clientes com quem guardo boa relação, pedindo-lhes feedback sobre os processos que fiz com eles. “Os outros” são, sem dúvida, a peça fundamental do meu caminho.

Outra coisa que resulta comigo é fazer um ponto e vírgula. É parar para me deixar ir ao fundo, desabar temporariamente sem tentar aguentar nem manter-me forte. É sintonizar na minha fragilidade absoluta e na vulnerabilidade da incerteza, e estar aí uma semana, se necessário. Nessas alturas queixo-me, falo com gente, escrevo-me, faço listas do que não está bem e do que já esteve. E depois procuro um novo respirar. Faço muitas vezes pausas, quando as coisas se complicam. Viajo para lugares onde tenha amigos, para fazer coisas diferentes, ou para mudar só o contexto, a inspiração (eis um exemplo disso: http://www.thinking-big.com/blog/getting-inspiration-an-experience-in-a-residence). Às vezes pode ser mesmo ir lavar pratos para um restaurante, algo totalmente distinto do habitual trabalho mais intelectual; é um ganhar lanço para continuar a maratona, através de um sprint numa coisa diferente.

As pausas (no meu caso acompanhadas por reflexão, já que escrevo sempre sobre o processo, para poder perceber o que estou a ganhar com elas, de que forma é que estão a colaborar para o grande projeto de vida que pretendo) são momentos extremamente ricos, de empurrão e oxigénio.

Além disso, a leitura é uma fonte inacreditável de energia e inspiração. Autores que me fazem sentir esse quadro maior do qual fazemos parte, são peças-chave no caminho. José Tolentino Mendonça, Rui Chafes, ou até mesmo, na linha do romance, o Steinbeck ou o Saramago, contribuíram muitas vezes para não perder a noção de que, no fundo, esta é só uma viagem pela Terra. E uma viagem de que é importante desfrutar, com a qual nos podemos divertir e aprender e evoluir como humanos. Quando isso se torna claro por dentro, não há nada tão negro que não se aclare.

(Há um livro -“O diário de Etty Hillesum”- que me traz muita dessa perspetiva sobre o valor da caminhada, mesmo com dificuldades tremendas pelo caminho. Um reforço no continuar sempre e apesar de tudo, a batalhar pelo que se crê).

Em 12 anos de empreendedorismo e de trabalho numa área algo vanguardista, como a aplicação da Psicologia Positiva, tenho uma coleção de momentos negros bem rica. E, apesar de já ter tido momentos de impasse quase violentos, estas coisas são o que me mantêm na mesma linha, mesmo tendo tido infinitas vezes a possibilidade de ir por caminhos mais fáceis.

RP: Esta é uma publicação de programadores, para programadores e aspirantes a tal, apaixonados pelas tecnologias. Pelo que conheces do mercado de trabalho, estas ainda são áreas que têm procura?

EA: Diria que SIM, sem dúvida. Desde que se mantenham abertos ao mundo que respira, que evolui, que muda. E sobretudo, desde que se mantenham sintonizados com o Humano. Com as reais necessidades das pessoas, do ambiente, do que nos faz seres globais, e não com o que nos querem vender que são as tendências, as modas ou os novos indicadores.

Tenho a maior fé nos programadores que usem o seu conhecimento e a sua paixão a favor de uma construção de mundo mais amplo. Os exemplos de programas de intervenção social proliferam: programadores que criaram apps para ajuda aos Refugiados; para melhoria das formas de utilização de serviços de saúde; para estratégias de apoio às mães ou pais que cuidam sozinhos dos filhos; para idosos que vivem isolados; para estudantes que precisam de encontrar soluções de apoio escolar,… Os exemplos por todo o mundo (bem visíveis nos Hactkathons a que já assisti) dão conta de uma crescente implicação dos Programadores no desenho de um mundo mais forte, e é nesses que eu deposito as maiores expectativas.

RP: Dizem muitas vezes que os psicólogos são “aborrecidos”, de olhar carregado e pesado! Não obstante, ler-te, olhar para a Edite, não parece nada o cliché conhecido! Qual a razão ?

EA: (Ai diz-se isso dos psicólogos? Eu devo dizer que conheço vários bastante frescos e arejados:)

No meu caso, sinto que o meu profissionalismo, o meu rigor e a minha exigência comigo e com o trabalho que faço não estão, de maneira nenhuma, ligados à necessidade de parecer “séria”. Não sou. Rio à gargalhada no meio de reuniões, fico com os olhos a brilhar com post-its de muitas cores quando entro numa sala de formação, vibro com uma sobremesa de chocolate num jantar de trabalho e pego no vereador para dançar, depois de uma conferência muito séria. Não deixo de ser uma menina de 36 anos, suponho. Uma menina que é psicóloga porque se interessa pelo “Outro”, com o que tem de difícil e doloroso, mas sobretudo com o que tem de belo, de poético, de mágico, elevado, surpreendente. E ver isso tudo não nos pode deixar de olhar carregado e pesado, mas de olho brilhante e curioso, ávido, com vontade de fazer parte desse todo chamado Humanidade. 

RP: Num mundo competitivo, diz-se que “ou se nada com os tubarões ou se é tragado”, por eles, como os peixinhos do oceano. O que diria a Edite, a alguém que não quer competir com ninguém, não quer “tragar ninguém”, nem quer ser apenas um peixinho tragado por um tubarão ?

EA: A Edite diria – diz, diz-se muitas vezes, e não tem a menor dúvida disso – que a vida não é a preto e branco. Que não há nunca só duas alternativas para as situações. E que a criatividade, aliada aos valores no lugar certo, permite encontrar soluções que não passem só por “ou nadar com tubarões ou ser comido por eles.”.

Pode, por exemplo, criar-se estratégias de união de forças com outros ditos peixes pequenos. Um bom cardume intimidará qualquer peixe que se pense tubarão, não? Pessoalmente, tenho desenhado o meu caminho a enxotá-los com os paus mais compridos que conheço. Digo que “não” muitas vezes. “Não” a projetos, “Não” a formas de trabalhar, “Não” a parcerias que não me parecem justas. A sobrevivência a esses “nãos” nem sempre é fácil, mas em nenhum momento admito ceder quando são casos de algum peixe que se acha tubarão.

E também podemos repensar a própria noção de tubarão. Como diz o Novalis, no livro “Fragmentos de Novalis”,  “Ao vermos um gigante, devemos examinar a posição do sol, primeiro – e atentar se não será apenas a sombra de um pigmeu. (…)”. E eu não acredito em tubarões. Talvez eles se vejam assim, mas para mim não passam de peixes que vemos com óculos de aumentar. Se não pusermos esses óculos, são peixes, peixes normais. E não dá vontade de dar grande poder a peixes normais, pois não?

(Quando li esta pergunta a uma amiga designer, ela só me respondeu: “Cria o seu próprio aquário dentro do seu oceano.” Não podia estar mais de acordo.)

RP: Que conselho darias a alguém que se quer tornar freelancer, “nómada” ou não ?

EA: Acho que não me atreveria a dar propriamente conselhos mas, pensando no meu percurso de 12 anos como freelancer e no de quem conheço à volta, faço uma checklist que pode dar jeito percorrer:

– Ser resistente à instabilidade (económica, de chegada de projetos e de volume de trabalho, de ocupação). Estar preparado(a) para meses sem nada e meses com coisas a mais, e para uma vida em que os planos a médio/longo prazo podem ser uma miragem.

Capacidade para gerir e criar o quotidiano. Possuir uma disciplina pessoal de criar rotinas que funcionem (nem que de “rotina” tenham pouco, desde que siga uma estrutura que permita um equilíbrio entre produtividade e vida real/pessoal). Pode ser responder e-mails à 2 da manhã e dormir uma sesta no fim do almoço, desde que isso funcione com qualidade produtiva para o trabalho e sem rebentar a vida pessoal.

Não esquecer o corpo. Não vai haver cursos de Higiene e Segurança no Trabalho, nem formações em ergonomia, por isso é importante cuidar o corpo no dia-a-dia, desde os hábitos à forma de sentar. Nunca haverá razão nenhuma para que os dias passem sem que se faça um pouco de exercício (nem que seja levantar-se de meia em meia hora para esticar pernas 2 minutos e apanhar ar), comer o mais saudável possível (a tentação de petiscar todo o dia, de comer a primeira comida de plástico à mão ou de passar horas sem nada no estômago é grande, por isso é bom arranjar estratégias para evitar isto).

Aliás, a criatividade é fortemente aumentada com o movimento, por isso, nos dias de bloqueios fica a dica: caminhada de meia hora. Ativa corpo e conexões sinápticas.

Estar preparado para que vida pessoal, vida profissional e vida social sejam, por vezes, uma mesma coisa. Arranjar estratégicas para que isso não interfira ou para aprender a separá-las, quando necessário/possível.

Saber viver com muito e com pouco, e desfrutar disso. Saber gerir os recursos financeiros e a energia, quer quando são muitos quer quando são poucos. Fazer disso quase um desporto.

Muita abertura ao mundo. Ninguém vai passar uma circular a anunciar necessidade de mudanças estratégicas, ou de expandir negócio ou de diminuir custos diários. Todas as mudanças estratégicas terão que vir da capacidade de análise do próprio negócio, do mercado, e da perspetiva sobre o próprio mundo à volta. Estar à escuta e atento a ele é fundamental (E depois cada um escolhe como e se se adapta a ele).

Capacidade para saber (ou saber a quem perguntar) não só sobre a sua área de negócio, mas sobre tudo o que ter um implica: finanças, marketing, design, comunicação,…

Saber comunicar com assertividade, com clientes, colegas, fornecedores e mundo à volta. A comunicação fluída, direta e fácil é fundamental em todo o processo: acertar prazos, negociar formas de pagamento, pedir e dar orçamentos, anunciar alterações, saber dizer não com delicadeza,.. Para mim é uma das grandes necessidades necessárias a qualquer freelancer que trabalhe com clientes finais, pelo menos.

Ter seriedade nos valores. Ter uma palavra na qual se possa confiar, cumprir  acordos, prazos, saber desculpar-se perante um erro.  Sendo a cara do projeto profissional (na verdade, o projeto todo), é extremamente importante que os valores sejam íntegros e que a seriedade, o rigor pessoal e o brio sejam requisitos imprescindíveis. Na minha opinião, esta é ponto que mais marca a diferença entre um freelancer com que eu desejo ou não trabalhar.

Ter uma boa rede de pessoas à volta. Pessoas a quem pedir conselhos práticos em áreas que se conheça menos; colegas, mesmo que sejam concorrência, com quem se possa aprender com humildade; uma ou duas pessoas que vão lá estar quando apetecer gritar que se vai desistir (vai acontecer mais vezes do que as mãos contem, provavelmente. E está tudo bem!); pessoas ou grupos que sejam lufadas de ar fresco – artistas, criativos, pensadores, críticos –  que permitem sempre um zoom out da vida e que relembrem que ela é sempre mais do que o negócio que se está a desenvolver (às vezes faz muita falta).

EA: Eu falo destas coisas como pontos a desenvolver. Acho que quando começamos nos faltam mais de metade destas capacidades, naturalmente. Mas é a vontade de estar atento(a) a elas e de as ir desenvolvendo que pode ajudar-nos a decidir se se está ou não preparado(a) para avançar.

Não acho que toda a gente se encaixe pacificamente neste estilo de vida, de freelancer. A incerteza e insegurança e necessidade de disciplina são grandes. E saber dizer: “eu sinto que não sirvo para este tipo de caminho” é um enorme passo, e um importante.

Para os que o começarem: BOA SORTE, mente bem aberta e coração atento!




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